segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Continuando a conversa de 2013 ...

 

 Continuando a conversa em 2026


“Você conhece alguém que trabalhe sem carteira assinada? Sem direitos e garantias trabalhistas? Alguém que trabalhe no serviço público como terceirizado, bolsista, estagiário, contratado, RPA, jornada intermitente ou somente com cargo comissionado? Pois é, este trabalhador, independente de sua função ou remuneração, enquadra-se no conceito de precarização do trabalho. Um fenômeno global e crescente que vem se tornando parte da cultura profissional no setor industrial, fabril, como também de serviços.”                Desprecariza-ação, março de 2013   

Em março de 2013 foi publicado nesse blog – Desprecariza-ação -  o  primeiro artigo com o título “Para começo de conversa”. O texto buscava informar sobre a precarização do trabalho e o crescimento deste fenômeno no Sistema  Único de Saúde (SUS). O projeto foi aprovado no Programa de Mestrado Interdisciplinar da Universidade Federal Fluminense -UFF, com o objetivo de compartilhar teorias, análises, entrevistas, bibliografias e reflexões sobre o tema. O maior desafio da proposta estava em abordar um assunto tão amplo e complexo de forma leve, cognoscível  e objetiva. .

    Treze anos depois, a suposta solidez da realidade se pulverizou no ar. Como uma série de ação, o país encenou  governos de  centro-esquerda, direita, extrema-direita, com  episódios de  impeachment, golpes, prisões, pandemias, endemias, catástrofes. Sem falar nas tecnologias, que entraram no roteiro  com o pé na porta, elevando a audiência ao oferecer informação em tempo real, conectividade, fake news, romance,tendências, bizarrices, violências de todo  gênero e um submundo hediondo que não sabemos mensurar. Sim, o Brasil de 2026 tornou-se uma série com 13 temporadas, com eletrizantes episódios de ação, suspense, violência, terror, humor e muito drama.  

    Esse roteiro, chamado Brasil,  vem se desenvolvendo com reviravoltas, teorias conspiratórias, vilões de primeira grandeza,  dilemas morais e muitas fugas de alcatraz.  Preso na cadeira, está o  espectador, atônito,  sem fôlego e desalentado e completamente sem rumo, reconfigurando sua rota a cada maldita temporada.  

     Desta forma, estamos assistindo apavorados o remake da temporada 2013 sobre empregabilidade nas relações de trabalho, claro que com  mais sofisticação, novas tecnologias, personagens e cenários. Contrariando todas as expectativas, o vilão não foi destruído! O precarizador  do trabalho (precarização) permanece  antagonista de sucesso em todas as séries, de todas as temporadas, seja no Brasil ou em qualquer lugar do Pacífico.  

     A história se repete, sem final feliz. Mudando o cenário para a área da saúde, em específico no SUS, não podemos romantizar e achar que esse elenco vive de  amor e devoção ao próximo. è uma falácia! o profissional de saúde não paga seus boletos com juramento ou renúncia. Trata-se de uma  força de trabalho vital imprescindível,  que ainda não foi possível robotizar. 

    Portanto, ela  segue impactada pela  reestruturação do trabalho, na medida que gestores da  promovem reconfiguração do acesso, ignorando a  forma legal de provimento de cargos. Assim, o  processo de admissão envolve fluxos “compulsivos”, instáveis e volumosos, resultando em perda de direitos, desvinculação da relação pedagógica do trabalho, discriminação, exclusão social, subemprego e desemprego, como também a sujeição patronal e o enfraquecimento sindical que impede mobilização e resistência coletivas dos trabalhadores.

    Mas, afinal, qual a necessidade de retornar o primeiro artigo de 2013?

    Retornar à 2013 para enfatizar que o que foi anunciado como um processo destrutivo do mundo do trabalho, hoje faz parte de uma realidade crescente, multifacetada e irreversível. O sucesso desse novo paradigma se sustenta num conceito de excedente de mão-de-obra, ou exército reserva de mão-de-obra, ou seja, existe uma massa de trabalhadores desempregada, disponível para o mercado, sujeita a baixos salários e condições precárias, sendo um elemento estrutural na engrenagem capitalista para manutenção do sistema. 

     A título de exemplo, a Associação de Servidores da Saúde de Niterói denunciou no Instragram o atraso no pagamento dos terceirizados da empresa de limpeza e o pagamento do piso salarial dos enfermeiros e técnicos de enfermagem RPA’s da Secretaria de Saúde (RPA - recibo de pagamento autônomo). Notem que a precarização se estabelece na estratificação da categoria, com proventos e benefícios diferenciados. Condição na qual os servidores não se reconhecem no coletivo, como trabalhadores do SUS, mas como “prestadores de serviço” por conta da fluidez da relação.   


     Precisamos ressaltar que o SUS é o maior sistema de saúde do mundo, um dos maiores empregadores do planeta com cerca de 3 milhões de profissionais (diretos e indiretos) em atenção a mais de 200 milhões de brasileiros e habitantes em solo brasileiro. Como movimentar um sistema de tal magnitude? Com pessoas. Ainda não descobriram outro método, se o sistema depende de pessoas, da força de trabalho de profissionais de saúde (2/3 composta por mulheres) torna-se imprescindível e inegociável a valorização, capacitação, remuneração, humanização, progressão de carreira e proteção desses profissionais. O SUS não pode ser o paradigma da precarização e da exploração da força de trabalho de trabalhadores. 

VAMOS FAZER UMA PAUSA PARA O CAFÉ, PORQUE ESSA CONVERSA ESTÁ SÓ COMEÇANDO....

 “Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito

 Transcorrendo, transformando

 Tempo e espaço navegando todos os sentidos”.

  (Tempo Rei. Gilberto Gil, 1984)

 

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